O Sonho de Isobeel
narrador onisciente: Isobeel precisa de muito silêncio para conseguir dormir porque ela costuma sonhar mais com sons e sensações do que com imagens e ações. Daí sua dificuldade em deles lembrar, não que não lembre pois tudo que o corpo produz nunca é excretado completamente, algum coisa fica, não se sabe onde, mas que fica, fica.
(Isobeel não precisou nem de 15 min para capotar, deitou e lá ficou estática, de peito aberto, de barriga exposta, meio arqueada para um dos lados. Assim permanece a maior parte da noite. O rosto é plácido, os braços são rentes ao corpo em direção aos seios).
O sonho de Isobeel
(a descrição do sonho de Isobeel é acompanhado da música de fundo " As Valquírias, de Wagner. Não é o narrador onisciente quem fala, mas o sonho é projetado numa tela de cinema ao fundo, com a voz da própria Isobeel como se ela estivesse tentado se lembrar dos fragmentos oníricos)
Isobeel: Esta noite não sei se dormi ou só cochilei ou se só permaneci em vigília ou se nem dormi. Não lembro de nada, só de alguns sons e as sensações. Me sentia confortada, esperada, era uma sensação familiar de algo que nem vivi. Estranho, avisei que sou estranha e tenho maneiras estranhas de descrever o que sinto. O som era um som de respiração mas como se a respiração fosse de dentro de mim, não externa. Mas não era a minha respiração, parecia que eu estava respirando debaixo d´água e alguém ou algo também. Respirávamos no mesmo tom e intensidade, como se conversássemos pelo ar, mas sem falar. Eu não via, meus olhos permaneciam sempre cerrados, mas meu corpo estava aberto às vibrações de modo que quanto mais eu tentasse não sentir, mais eu sentia, como se ouve um raio de trovão, ninguém consegue não ouvir um raio de trovão, mesmo os surdos, mesmo as formigas, todo mundo sente e sabe ver e saber o que é um raio de trovão. Eu me sentia bem e queria ir até ali de onde o som provinha ou tentava dialogar comigo, mas eu estava imóvel. Este sonho era ao mesmo tempo do tipo dos pesadelos que tenho de não conseguir gritar e nem correr, mesmo querendo e precisando. Mas não era pesadelo porque eu não tinha medo, eu tinha zelo. E não era pesadelo porque eu me sentia em casa. Isto, eu achei que sonhei eu estando na minha casa, a imagem mais próxima para traduzir esses sons com que sonhei é isso, era um barulho de casa de parede branca, a minha casa, não a que vivo, mas a que construirei. Só.

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