6 de abril de 2007

no, woman, no cry?!



" Embora isto nem sempre seja visível, os vegetais têm alguma forma de sensibilidade que os faz responder de alguma maneira a estímulos tanto de origem interna como exterma.Estas respostas, que podem ter diversas formas provocam, normalmente, crescimentos diferenciados que são os movimentos da planta procurando ou se afastando de alguma fonte de estínulo, ou, mesmo, provocam o murchamento ou o entumescimento de algum órgão desde que se produza determinada condição."


A menina agora tem os olhos cansados de tanto chorar. Justo ela que nunca chora. Justo ela que se ajusta ao tipo dos fortes, quando raramente chora, chora de canto, sozinha. Agora ela chora aos soluços bruscos. Olhos inchados ela pensa em como irá poder passar o rímel e o lápis preto agora, não dá, não dá.

As pálpebras pesam ela não sabe mais porque chora. Se é por alívio, alegria, desespero, dor, desalento, solidão, desamparo ou incompreensão. Tormentas de emoções dúbias invadiram seu peito como numa cachoeira a perder de vista onde começa a cabeceira deste imenso caudal de águas que são as suas sensações.

Ela lembra que quando era pequena, pequenininha assim que nem lembra o tempo que era, a plantinha que mais a agradava e surpreendia era uma que as crianças apelidaram de "maria dorminhoca", depois outro lhe disseram que também tem o nome de "sensitiva"
É uma que quando a gente toca com os dedos, rápido se fecha, contrai as suas folhas num gesto de elegante retraimento, como se fosse um auto-reflexo para se proteger. Proteger de quê? Era esse o mistério que não sabia. Mas só agora quase adulta que ela pensa nessas metafísicas. Antes quando era tão somente uma criança, o que gostava nessa plantinha era o fato dela viver entre matos silvestres, por entre campos repletos de picões e ervas daninhas e ainda assim, tão suscetível, ali bem viver. A criançada quando achava uma ia logo avisando os outros pra gente ficar relando nelas e rindo.
Encontrá-la, intacta, tinha o quilate de uma revelação, um arrebatamento súbito, era o milagre da planta que sentia e se movia com a nossa presença humana.
Era a surpresa e o encanto de encontrá-la, rara, entre matos grosseiros.
Hoje, ela reflete metafisicamente que era a surpresa de encontrar uma planta quase-gente e que, acreditem, sente.
E, metafisicamente, uma planta que a despeito de sua intrínseca vulnerabilidade, transcende.
Hoje, não mais criança, mas menina quase mulher ela pensa: "quem é mais sentimental que eu"?
E não encontra resposta.
Teme na vida nunca encontrar esse tipo de gente e ter de conviver sempre com gente rala e rasteira nesse sertão de gentes áridas, ásperas, secas, breves e curtas.
A menina sonha encontrar alguém que lhe toque sutilmente com seus dedos silentes a ponto de afetá-la para um todo sempre.
Incrivelmente ela não tem o aspecto físico de quem teme, de quem procura, seu rosto emana sorte e uma pessoa calma.
Porém, internamente, um turbilhão revolto de mar a habita, habita sua alma construída de constituída de puramente água.
Água morna que ora se torna turva de tanta coisa impregnada, de tanta gente que tenta usá-la - dada sua abundância - mas que se esquecem que além de rara, ela também é escassa.
Esta menina de que falo nunca sabe separar o moinho do rio, o continente do conteúdo, a parte do todo, o perímetro do miolo. Para ela são coisas indissociáveis.
Também não sabe, tantas vezes, discernir contornos nítidos entre ela e os outros; entre o Ego e a alteridade. Tude se funde e ela imerge profundamente na consciência alheia a ponto de tornar-se imagem espelhada de quem a espreita.
Muitos a procuram e ela nunca nega convite. Este é o problema, ela nunca sabe dizer chega, ela sempre mantém a porta aberta sem medo de que invadam sua casa.
Hoje, porém, foi assaltada de súbito pânico. Achou ter visto, ouvido alguém que lhe arrombaria a casa. Ficou catatônica, as pernas tremiam involuntariamente. O medo era tanto que chegou a pensar que havia se convertido no próprio MEDO. Fechou, então, bruscamente a porta. Ninguém entendeu. Justo ela que sempre fora tão solícita e prestativa, que mesmo com olheiras evidentes, fazia serões e esticava um sorriso. Hoje ela disse: " cansei de ser Amélie", e "ninguém pensa em mim, ninguém se coloca na minha pele, ninguém sabe quanto me custa dar a outra face e não pagar as coisas na mesma moeda".
Remoeu-se por dentro. Seu senso de justiça é muito alto, não engole qualquer sapo. Esforça-se para não arrotá-lo. Mas hoje não houve porta, tranca, ferrolho que fosse capaz de segurar o choro, o esporro, o enjôo. Vomitou sobre si mesma no quarto que parece-se agora mais um chiqueiro. Perdeu-se nas coisas espalhadas pelo chão, no lençol impregnado de sucessivos gozos solitários, nas bitucas de cigarro, nas fumaças impregnadas na parede bolorenta, nos livros nunca terminados, nos CDs que só lhe trazem o tempo perdido da saudade, nos escombros.
Sim, percebeu que vive há muito tempo sobre escombros, os outros lhe pesam os ombros cuja dor nem mais sentia, cuja caótica nem mais via.
Hoje a menina desmoronou.
Ela sabe que seu corpo não aguentará muito tempo se toda vez que precisar dançar, repreender os passos.
Ela que sempre foi intensa, está se tornando densa. Teme perder a leveza. Mais que isso, teme não saber equilibrar intensidade e leveza. No fundo ela sabe que todo rito é doloroso e um espurgo. Porém sabe também que se não souber para onde é passagem, se perderá no caminho do desabrochar.
Ela é uma flor, essa menina. Mas uma flor tosca, dessas que dão em cactos ou em matos que ninguém precisa regar, que nasce entre pedras ou rachos da parede ou do cimento, que ninguém repara.
Mas hoje ela precisava de cuidado, de um ninho, de alguém que sabe como se aninha. Não encontrou antes. Não encontrou apesar dos apelos. Vitimizou-se para encontrar sossego; encontrou. Não quer mais vitimizar-se nem agir de má fé consigo mesma, nem com os outros. Tenta.
Encontrou novamente a "maria dorminhoca" e lembrou novamente o seu sonho desta noite.
Ela tem sonhado muito. Ela tem basicamente 3 tipo de sonho: um em que ela encontra gente ela conhece na vida acordada (portanto trata-se de um reencontro); outro em que ela encontra gente que ela nunca viu na vida (portanto trata-se de um primeiro encontro); e outro tipo em que ela é a própria coisa sonhada (portanto trata-se de um misterioso desencontro entre seu corpo e o que ela mesma vê deste corpo).
Agora a menina precisa dormir para depois acordar.
Ela está cansada mas não guarda mágoas nem de si, nem dos outros.
Ela não sente nada mas não está insensível. Pelo contrário, entendam, quando ela encolhe suas folhas não é por egoísmo e atuomática retração; é por necessária proteção pelo excesso de sensação, sensitiva que esta menina é.
Eu não conheço muitas gentes, portanto não sei quantificar muitas sensibilidades, mas de todos que senti, sinto que ninguém sente como ela. Ela sente mesmo quando não é sensação, sentimento. Ela vai além , ela sente quando é pressentimento.
A menina, pois, precisa dormir. Deixem-na repousar, as pálpebras sobre sua íris estatelada, suas pupilas dilatadas e seu coração dilacerado.
Ela só precisa de outros seres sensíveis que compreendam sua dor, mesmo que nunca tenham-na sentido em si.
Que compreendam seu dúbio desejo, que quando a tocam, ela rápido se fecha, mas logo se reabre fortalecida, mas sem criar muros, fortalezas, cadeados.
Ela só precisa de um pouco de silêncio para acordar mulher.
Ela só precisa sentir e compreender este ínfimo mas necessário espaço que há entre sua pele o dedo que a toca, irrefletidamente.
Silêncio...cuidado...e tato, a menina dorme.