26 de fevereiro de 2007

"O Sertão é do tamanho do mundo"

"O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas".
(Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas)

Recentemente me disseram isso.
Fiquei reencantada!
Descobri que é a minha última. Essa. Vida longa para tanto.
Descobri que a gente tem o direito de saber pra onde anda, para onde vai, pra não bater o carro, pra não tropeçar, pra suceder.
Descobri que certas coisas a gente não descobre sozinha.
Foi preciso que me dissesse o que eu já sabia, pra eu saber.



"Já vou, será?
E o que eu vou ver?
O mundo, eu sei, não é esse lá
Eu vou lá,
que andar é reconhecer"
(los hermanos)


23 de fevereiro de 2007

fillet of light/ filete de luz/ filé de luz...


_ A senhora aceita um filé de luz assado na brasa?Ao ponto.
_Aceito!Humm..que gostoso!

Spot


chaminés de luzes da fábrica um...

fiat lux


e o deus disse:
_faça-se luz!

like a fire...
it´s my desire...
Coloquei vários trechos de Clarice Lispector aí abaixo.
Por quê?
Primeiro por raiva. Porque de uns tempos pra cá virou "moda" gostar dela. Acabo de ver um programa do Joâo Gordo na MTV entrevistando a Sabrina Sato, e na casa dela tinha livros dela. O JOão, claro, satirizou dizendo que ela botou lá na estante só porque sabia que teria a entrevista.
Ou seja. Até imbecis como Sabrina Sato sabem que Clarice Lispector ficou " chique".
Estes trechos eu peguei de um site de um suposto jornalista que compilou suas " poesias"..... errr...Clarice nunca escreveu poesias.....tudo isso são trechos pinçados de suas obras literárias, completamente descontextualizados, como se fosse ela, em primeira pessoa que tivesse dito tudo...
Não é.


Segundo por ciúmes. Porque não admito que qualquer idiota diga que a ame, admire, entenda. Isso é para poucos.

Terceiro por orgulho. Porque diante de tanta banalização clichê de Clarice eu me sinto na obrigação de relê-la ´porque sei que posso compreendê-la e ela a mim.

Nossa! Quantas paixões: raiva, ciúmes, orgulho!! São bons motivos para entrar na sua literatura, as paixões humanas, demasiadamente humanas!

E por fim, por transcendência e hermetismo.
Porque estes trechos transcendem a mim, por mim. São tudo que sou neste hoje acumulados todos neste momento, e eu não sei explicar. Ela, nesse sentido, é a minha transcendência que me salva. Não sei se salva, às vezes até acentua a perdição, mas pelo menos me tranquilizo de saber que outro ser humano também já sentiu. Nos hermanamos num religare estranho e todo especial.
O hermetismo por que se me traduzem estes trechos, o que eu quero traduzir aos outros postando eles aqui?
Não digo.

22 de fevereiro de 2007

"Mas há a vida Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata. "(clarice lispector)
"A perfeição O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição. "

(clarice lispector)
Dá-me a tua mão

"Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
(clarice lispector)

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

Clarice Lispector




Achei isto extremamente apropriado para o que faço com este blog....
com meus diários. com minhas cartas. com minha antropologia incipiente.
com meus recados.
com minha necessidade de escrever.

Doce Dulcinéia, sua irmã e a Keféie Xinuí
Terra Indígena Mococa. jan. 2007
foto: Cris Quinteiro / Sony DSC - W50

"As culturas supostamente em desaparecimento estão, ao contrário, muito presentes, ativas, vibrantes, inventivas, proliferando em todas as direções, reinventando seu passado, subvertendo seu próprio exotismo, transformando a antropologia tão repudiada pela crítica pós-moderna em algo favorável a elas, 'reantropologizando', se me permitem o termo, regiões inteiras da Terra que se pensava fadadas à homogeneidade monótona de um mercado global e de um capitalismo desterritorializado [...]. Essas culturas, tomadas de um novo ímpeto, são fortes demais para que nos demoremos sobre nossas infâmias passadas ou nosso atual desalento. O que se carece é de uma antropologia disposta a assumir seu formidável patrimônio e a levar adiante suas muitas e valiosas intuições" (Latour 1996:5).


As crianças kaingang com sua presença exuberante de força criadora e simpatia com seus sorrisos e seus pés dispostos a me seguir na ' pesquisa' me tomaram de um novo ímpeto e me reantropologizaram!E me guiaram no campo, me dando muitas e valiosas intuições.
Elas me olhavam, eu as olhava. Não era eu a pesquisadora, era eu a pesquisada!
Cestarias - Krê- Kaingang
Terra Indígena Mococa- janeiro 2006
foto: Cris Quinteiro/ Sony DSC- W50)
"A "cultura" não tem a menor possibilidade de desaparecer enquanto objeto principal da antropologia - tampouco, aliás, enquanto preocupação fundamental de todas as ciências humanas. (...). Mas a "cultura" não pode ser abandonada, sob pena de deixarmos de compreender o fenômeno único que ela nomeia e distingue: a organização da experiência e da ação humanas por meios simbólicos. As pessoas, relações e coisas que povoam a existência humana manifestam-se essencialmente como valores e significados - significados que não podem ser determinados a partir de propriedades biológicas ou físicas. Como costumava dizer meu professor Leslie White, um macaco não é capaz de apreciar a diferença entre água benta e água destilada - pois não há diferença, quimicamente falando. Nenhum outro animal, tampouco, organiza os fundamentos afetivos, as atrações e repulsões de suas estratégias reprodutivas a partir de significados, sejam eles conceitos socialmente contingentes de beleza ou noções historicamente variáveis de moralidade sexual." (Marshall Sahlins In: O "pessimismo sentimental" e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um "objeto" em via de extinção (parte I) )
Arapuca!
Terra Indígena Mococa- janeiro/2007
fotos: Cris Quinteiro/ Sony DSC- W50

"trata-se de uma realidade instável permanentemente à mercê dos golpes de um passado que a arruina e de um futuro que a modifica. (O cru e o cozido, p. 21. lévi-strauss).

"representações míticas da passagem da natureza à cultura",


do Cru ao Cozido? Terra Indígena Mococa- jan 2007
foto Cris Quinteiro/ Sony DSC W-50
"À medida que a nebulosa se expande, portanto, o seu núcleo se condensa e se organiza. Filamentos esparsos se soldam, lacunas se preenchem, conexões se estabelecem, algo que se assemelha a uma ordem transparece sobre o caos. Como numa molécula germinal, seqüências onde ondas em grupos de transformações vêm agregar-se ao grupo inicial, reproduzindo-lhe a estrutura e as determinações. Nasce um corpo multidimensional, cuja organização é revelada nas partes centrais, enquanto em sua periferia reinam ainda a incerteza e a confusão"
(Introdução de O Cru e o Cozido, p. 21, Claude Lévi-Strauss)
Terra Indígena Mococa ao terno entardecer....
foto Cris Quinteiro/Sony DSC- W50-
e agora ...olhando o horizonte do campo etnográfico,
being here
depois do
being there...
eu só posso é ficar matutando porque Lévi-Strauss estava tão certo quando certa vez disse:
"O antropólogo é o astrônomo das ciências sociais: ele está encarregado de descobrir um sentido para configurações muito diferentes, por sua ordem de grandeza e seu afastamento, das que estão imediatamente próximas do observador."

21 de fevereiro de 2007

Notícias pós carnavalescas!

Sim, depois do carnaval recebemos mensagens bem singelas!
Veja bem, o único esforço que fiz esse carnaval foi o de fechar as pálpebras e o de mudar o canal da TV.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, outra amiga me informa que:

Acampei numa fazenda em Rolândia!!!!
Tava muito legal mas voltei com o braço fora do lugar....rsrsrsrsrs
Agora estou de molho por quinze dias

Para os que não são do norte do Paraná eu explico: ROLÂNDIA é mesmo o nome de uma cidade, não é trocadilho!

Deixai as pessoas irem pra Rolândia e se divertirem deslocando braços!
Bom, enquanto as pessoas vão para Rolândia e voltam com o braço fora do lugar, eu continuo de molho aqui...de molho!

Enquanto isso, na sala de justiça...

Enquanto eu estava passando meu carnaval mais careta impossível, assistindo essa porrada de filmes mais tudo que passava na tv a cabo, e dormindo e comendo o dia todo,
eis que do outro lado, na sala de justiça de minas gerais , uma amiga fazia coisas do tipo, só pra você ter idéia:
entrou num baile sem fantasia e voltou pra casa vestida de capeta
com tridente na maão.


e pra completar, voltou cantando a singela marchinha de carnaval:


rema rema rema remador

vou comer o cu trocador

se o trocador for vigarista

vou no cu do motorista

se essa porra não virar ole ole ola eu chego lá

Pelo menos ela aproveitou. Agora ela tem que cair na real e levar a vida mundana. Mas pelo menos ela aproveitou!


Ok gente, moçoilas mineiras têm o direito, ainda mais em Ouro Preto!
Quem ficou com inveja de virar o capeta, só depois da Quaresma!


a casa do lago...

não estava esperando nada desse filme. na véspera de carnaval eu queria só qualquer coisinha pra chorar um pouquinho.
afinal tinha o lindo do Keanu Reeves, mas pra descompensar tinha a Sandra Bullock . Todo filme que tem ela é meio que pra se suspeitar né.
Mas aí catei na locadora, melhor ainda, porque eu só estava querendo chorar.
Mas não consegui!
O filme me deixou louca pensando no tempo, no tempo quântico e com vontade de escrever carta pra alguém que me explique " como isso pode estar acontecendo?"

VAle a pena, roteiro interessante!

Transamérica


porque não é um filme só sobre a transexualidade! e porque não é cômico, apesar de ser. Entende? Não fica tirando sarro dos estereótipos!Mas tira sarro da falta de humor de uma vida tragicômica, saca?
porque é um filme sobre as relações humanas e a conquista da identidade e se sentir à vontade num corpo e num mundo.
Leve e humano, sem cair num clichê pseudopolitizado em prol das minorias sexuais e dos abusos sexuais na infância.
Não é melodrama. É vida real e torna o estranho, próximo, por isso me ganha!
p.s: a Bree, personagem principal, transexual, é na verdade uma mulher, a atriz Felicity. Fiquei o filme todo pensando em quem seria aquele homem medonho, disfarçado de mulher.....perfeita a maquiagem!

Zuzu Angel


Este mês li um artigo muito interessante no Caderno Mais da Folha de SÃo PAulo falando sobre nossos poucos filmes da ditadura em contraste com vários filmes dos nossos hermanos de america del sur, como Argentina e Chile, que tem produção abundante e muito boa sobre o assunto.Anotei o nome desses diretores e quero assistir todos.
O autor do artigo fazia essa relação com nossa incapacidade de lidar com esse nosso recente passado histórico. QUais são os filmes que falam da ditadura? " Que isso companheiro?" , só me vêm esse à cabeça agora.....de "tantos" filmografia a respeito do tema que temos hein!!
QUe isso, companheiros, que país é este que não aprendeu a expurgar seu passado? A gente costuma esquecer né!!

Zuzu me lembra as madres de la plaza de mayo!
MAs não tivemos envolvimento da família, na Argentina as mães tomaram a dor para si.
Zuzu, neste sentido, é exceção à regra pois milita a sua dor, em vez de chorar sozinha.
Guerreira essa mulher!
Assim como as madres não aceitaram a indenização do desaparecimento e continuaram a fazer barulho e escrachos, Zuzu também não aceitou a omissão do Estado ditatorial pela morte do filho

Nós aqui no Brasil não sabemos quase nada ainda sobre o período da ditadura (64-84), não só porque vozes foram caladas e mortas mas sobretudo porque passados mais de quarenta anos ainda continuamos calados.

Por isso esse filme merece ser visto e gritado.

P.s: ótima atuação da Patricia Pillar e ótima produção do figurino de época e da moda dela.

Los lunes al sol.............



Das melhores películas espanholas que vi nos últimos tempos. Los lunes ao sol (segundas ao sol), dirigido por Fernando León de Aranoa.
Bastaria dizer que Javier Bardem estaria no elenco para que eu me interessasse porque um dia, de fato, vou pra Espanha me casar com ele!
Como eu sempre faço péssimas críticas de cinema, não escapar dessa sina.
Vou apenas dizer porque vocês devem ver:
para entender porque se chama "Segundas ao Sol" e toda a dor, quase sempre insuperável, que isso significa numa sociedade capitalista pós-fordista em que vivemos!
Para ter vontade de tacar pedras em muitas luminárias caras de estaleiros do mundo todo!
Só por isso.
O resto, ou melhor, o tudo que eu não sei dizer porque fiquei fixada nestas duas coisas, além é claro, na beleza espanhola de Javier e sua barba, você veja! Veja veja, veja! Imperdível!

14 de fevereiro de 2007

primeiro dia de aula no ensino religioso.

Coisas com as quais eu não estava acostumada, e terei de me acostumar de agora em diante:

  • "quantas linhas eu pulo, professora?"
  • " é para copiar?"
  • " que dia é hoje?"
  • "que cor de caneta eu copio?"
  • " tiiia!" (resquício do primário)
  • usar jaleco.
  • escrever bonitinho e redondinho na lousa.]
  • " professora, deixa eu apagar a lousa para você?"
  • "quantos anos você tem? você tem namorado? qual a sua religião?"
  • "professora, fulano está me enchendo o saco".
  • "professora, manda eles calarem a boca!"
  • e etc. e etc.

Hoje foi o primeiro dia de aulas de Ensino Religioso para quintas e sextas séries do Ensino Fundamental.

Muito engraçado! Haja energia!

Mas como são pequenos, como são fofos, como têm excesso de energia para viver, como conseguem ficar pouco tempo parados, como me olham e como tudo que digo pode ser levado como a palavra final, é muita resposabilidade. E aquela novidade toda para eles, caderno grande com muitas matérias, vários professores, várias aulas....e eu!

Gostei!

Fortes emoções já no primeiro dia: uma aluno chutou e rasgou a calça do outro aluno ficou chorando. Que situação!

Essa experiência certamente vai me enriquecer muito, é uma situação inédita na vida, e situações inéditas na vida costumam fazer a gente estabelecer conexões com outros neurônio. Vai ser bom! Vai dar certo.

Vai dar certo porque eles já me disseram:

" _Mas professora, você não tem cara de professora de religião!"

" _Ah é por quê? Como é a cara de professora de ens. religioso?"

" _ Ah....professora de ens. religioso tem a cara amarrada, é tudo chata. Você é legal!E a outra professora só ficava falando pra gente o que era certo e errado, ficava dando lição de moral na gente..."

Pois é meus queridos, que bom que não tenho cara de professora de religião, e que bom que vocês já notaram que eu vou fazer tudo diferente da professora anterior. Que bom ! Então vai dar certo! Só espero que seus pais também gostem e não achem estranho eu falar de religiões afro, umbanda, candomblé, rituais indígenas, budismo, espiritualidades da nova era e etc. etc.

Eu acho que a escola e os pais prefeririam que eu desse aula de normas e deveres. Mas não é isso né, então vamos fazer tudo escondido,,,,como se fosse uma "nova seita secreta", um novo modelo de dar aulas de Ens. Religioso que eu vou aprender junto com a curiosidade de vocês.

Ainda bem que na minha proposta estou amparada pela lei e pelas diretrizes estaduais de educação.

Espero que não seja considerada uma herege e nem me queimem na fogueira. Mas se me considerarem e me levarem, eu bruxa já estou acostumada, e posso renascer das cinzas feito Fênix.

E a resposta é:

_ "Não me perguntem quantas linhas precisam pular, porque eu sei de muitas coisas mas isso eu jamais vou saber"

hahahhahaa

13 de fevereiro de 2007

o terceiro olho







tem dias em que só o que eu posso oferecer é um pouco de mim.

incompletude de mim,

isso não te sustenta, eu sei.

isso não te basta,

nem a mim. mas é o que é.

e tem dias em que buscar um terceiro olho é a melhor coisa que faço a mim.

e minha incompletude se junta a tua junta.

tem dias assim, tem dias de completa solidão e vazio, tem dias nesses dias que o melhor a fazer é criar um ponto de fuga.

minhas fantasias de fuga é sempre na perpectiva com o Outro, num terceiro Olho, ainda bem!

talvez seja meu romantismo que se sobrepõe com vigor ainda sobre o niilismo.

nunca pensei em sair pelo mundo sozinha, preciso de mãos! preciso de gente, preciso!

nos meus sonhos idílicos de partida eu sempre fico triste sozinha quando vou para um lugar onde nao estão mais. eu choro.

mas eu também queria poder viver às vezes debaixo da agua, longe de toda gente, sozinha, sendo peixe, só observando e respirando. seria bom ser assim mas assim eu

me sinto vesga de tanto olhar para mim.

é preciso, pois, estar atenta ao Outro, com cuidado, sempre.

porque é o Outro que me torna Eu, e sem o qual qualquer idéia de Eu é mera tolice abstrata.

Preciso de gente que torne estruturada e flexível ao mesmo tempo. Porque é preciso ser Eu e ser muitas ao mesmo tempo, senão eu não gosto.

e veja bem, há tanta perspectivismo por aí.

ampliando as perspectivas,

quem sabe Sofie me veja como uma gata, não como humana.

e eu a veja como gente, não como animal.

Sofie é uma pessoa para mim e eu uma felina para ela.

quem sabe a gente possa trocar de corpos,

eu vire ela e ela vire eu,

se eu fosse Sofie a vida seria só dormir, levar uns cafunés e miar para insetos, seria gostoso.

observo ela, Sofie sempre sozinha, sempre em si mesma mas sem estar ensimesmada quando junto da gente, queria ser assim, queria estar sempre dentro de mim .

mas o terceiro olho sempre me fascina mais.

por que que é assim?



(fotos por Cris Quinteiro/ Sony DSC- W50)

9 de fevereiro de 2007






MÃOS MINHAS

Não há quem tenha as mãos como as minhas.
São mãos de criança em corpo de adulta.
Já tentei medi-las com outras pequenas que acho na vida.
Porém estas ou são pouca coisa maiores ou ainda menores.
Mas na exata exata, exata mesma medida não, nunca.
Também nunca achei linhas, quiromancias que se assemelhassem às minhas.
Antes eu até que queria ter mãos longas de pianista ou de atriz performática e dramaticamente expressivas.
Mas aprendi a amar as minhas.
São bonitinhas, são pequeninas e cabem bem para as mais diversas serventias.
Tendo dormido pouco foi logo de manhã ao salão de beleza. Só foi porque já estava marcado e certas coisas são inadiáveis. Enquanto lhe tiravam as cutículas e lhe lixavam as unhas e os calcanhares, sentia arrepios; arrepios como aqueles quando se passa o garfo entre os dentes.
E de arrepio em arrepio tais arrepios lhe remetiam a outros tipos de arrepios, mais prazerosos, sentidos em tempos passados.
. Olhou ao redor e viu-se, pois, entre quatro mulheres, uma em cada extremidade do corpo, a gorda na máo direita, a moçoila virgem na mão esquerda, a disquitada no pé direito, a simpatica no esquerdo. Não havia como escapar dali, mesmo que quisesse, embora não quisesse. Era como uma daquelas cenas surreais que faz a gente ter surto de rir nos locais os mais impróprios e nas horas as mais impropícias, como na fila dum banco, na entrevista dum emprego novo, no velório dum conhecido, no fora dum fim de namoro. A cada vez que ia rir apertava os olhos e mordia o canto dos lábios para sentir dor, em vez de escárnio. Afinal, gargalhar assim do nada àquela hora da manhã, com bob’s no cabelo e com as quatro extremidades do corpo aprisionadas por pessoas estranhas seria mesmo o último passo para a loucura. E pior, teria de contar porque estava rindo, e não queria ter olhos curiosos ou de censura sobre si logo de manhã.
Nesse momento sentiu uma dorzinha da pelezinha que lhe arrancavam brutalmente com o alicate. Gostou da dor, era suportável e de certa maneira até prazerosa.
Paulatinamente, com o sono acumulado e os toques precisos nos pés e mãos subiu-lhe à pele sensações antigas.
Parou por aí. Forçou-se a não confundir determinados tipos de arrepios brutos com outros mais sutis.

1 de fevereiro de 2007

hoje pela manhã eu quase enfartei....
repentinidades sempre me atrapalham quando estou contando com o previsível....
recebi uma ligação que fez o meu ano inteiro parecer sem chão...
ansiedade assim fazia tempo que não.
a vida às vezes nos prega peças tragicômicas, quem ri disso, Deus?


E o destino se encarrega de nessas encruzilhadas quando parece que perdemos o chão nos colocar de volta na estrada bem onde tínhamos parado.
Foi assim: a diretora da escola ligou e disse que eu havia perdido todas as minhas aulas extra por conta dos novos efetivos que as pegaram.
Pior, no dia anterior eu havia aberto mão de 5 aulas no colégio mais gracioso que achei nos últimos tempos (ele se localiza dentro de um parque arborizado, é pequenino, acolhedor) para que eu pudesse assumir neste colégio cujas aulas perdi.
Aí pensei: " Aí fudeu".
Sem em nenhuma das duas, agora estou pobre, fudida e falida!

mas eis que pela tarde eu ressuscitei, depois de ter morrido bastante durante a manhã.
fui escolher outras aulas.
e que destino gozador: continuo na mesma escola cujas aulas o novo efetivo me tomou!! só que agora no noturno, e no colégio gracioso tbm!

arritimias não me pegam mais!
eu espero!
e se pegar, pegue de leve!
porque eu preciso ter a sensação, ao menos, de que a minha vida no ano será mais ou menos previsível!

Coisa surpreendente é que de manhã enfartei, depois morri, depois ressuscitei, e comemorei com cerveja bebendo meu próprio defunto! E é como se eu tivesse ainda no mesmo ponto, como se eu não tivesse nem enfartado nem morrido, como se eu estivesse ainda viva dormindo antes da ligação da diretora.

Outra coisa surpreendente é que optei por umas aulas de Ensino Religioso!
Isso mesmo! hahahahahhaa
Justo eu, a Agnóstica!
Talvez por isso já comecei a usar o jargão das religiões: ressuscitar, destino e bláblá;;;
E ainda por cima será para crianças de 11 e 12 anos!E só por isso, o desafio de dar aulas para crianças será o máximo!
Não tenho a mínima noção do que vou fazer, pensei em começar a ler aquele livro do Jostein Gaarder sobre as religiões, reler o meu fichamento do Tao da Física do Capra, vou juntar uns mitos indígenas, pensar nuns filmes e músicas e fotos!
Pensei em reler o Mauss e sobre a feitiçaria dos Azande, pensei em aprender umas dinâmicas engraçadas, pensei em dar aula como se fosse antropologia, pensei em fazê-los duvidar da idéia de Deus mas encantar-se com as múltiplas cosmologias de explicação da sobre-natureza que diversas culturas criaram, tantos ritos, profanos e sagrados;;;;
Pois é, 2007 promete mesmo muitas emoções diferentes na minha vida!
Deus reservou um plano pra mim? Que ele agora me dê o "dom" de dádiva de graça um "plano de aula" já pronto....

" Vinde a mim as criancinhas!"

hahahaha

Amém!