27 de março de 2006

solilóquios: solidão cinematograficamente captada


Dentro do seu carro, em alta velocidade, saindo atrasada de um trabalho a outro, recorta o bairro pobre. Acende o cigarro, deixa tocar aleatoriamente as músicas no rádio. Traga e joga a fumaça bruscamente. Se ela pudesse espalhar o amor de uma ponta a outra como quando sopra o vento e a fumaça que sorve, tudo estaria solucionado, como a mãe que assopra o machucado do filho, tudo estaria solucionado. Mas não pode. Ela fuma porque precisa respirar, e porque precisa amar.

Aos poucos as músicas vão fazendo sentido, e sua expressão muda.
A música antiga lhe toca algo, fundo.

Com o som bem alto e com a seguraça de quem ninguém a escutará, enfim, diz bem alto pra si mesma:
"Como dói, porra, por que eu te amo?".

Não se vê para onde ela vai, as imagens seguem velozes dessa paisagem urbana e se fundem com as memórias de sua viagem recente. Não se vê, não se escuta, o vento ecoa, simplesmente o seu "como dói, porra, por que eu te amo?" o grito que escapa, nervoso, mas que ninguém escuta o barulho, e ela fica, quem sabe o vento lhe traga alguma resposta tardia.

sem ponto, desponto: desapontamento


muda na rota, pega agora outra linha, desalinhada.
não acorda em tempo, atrasada.
não chega na hora, nada pontual no ponto de ônibus.
pra que esperar por quem não vai chegar? pra que esperar pra quem se diz sempre ocupado? pra que esperar por esse amor atrasado? por quem?
sem ponto, desapontada, ela permanece sentada...
esperando, esperando....

16 de março de 2006

ao ponto


quando o ser humano começa a perceber outro ser humano se dá conta de sua carência intrínseca e urgente.
hoje somente os dois no ponto de ônibus, ele chegou primeiro e deixou o lugar pra ela sentar a seu lado. ela quase deu o sorriso, quase disse o tal do "bom dia" para inicar uma conversa qualquer.
mas não se pode desencantar a princesa assim como quem acorda um sonâmbulo, vai que depois do " bom dia" ela descobre que o cara é um mala, pronto, está desencatada a magia o mistério dos encontros.
melhor continuar assim, tão melhor imaginar mil e uma coisa, ter e saber sem saborear também pode ser gostoso, o amor abstrado, sem concretude, sem realização empírica, saber e sabor, saber implica querer não saber, e no fundo no fundo ela não quer saber das incompletudes dele, talvez por isso que ela se compraz tanto na esperança de vê-lo todas as manhãs, disfarçar o espanto, arrumar-se um pouco mais pra causar um olhar, perceber que ele a olha, discretamente, secretamente entre os solavancos do busão eles vão se paquerando no busão.
e assim é a história triste do ser humano.

15 de março de 2006

seis e quarenta mais um minuto


a vida dela se enche de espanto toda vez que a ordem natural das coisas é afetada pela sincronicidade das coisas.
era pra ta as seis e meia da manhã no ponto.
chegou seis e quareta e um.
não viu o moço, que atraso desgraçado!
resolviu ir no ponto da rua ao lado.
não aguentou esperar, voltou pro mesmo ponto de sempre.
e lá estava ele lá, também atrasado. o encontro não marcado, desencontrado, encontrado.
ridículo, eles têm que disfarçar que não se reconhecem e até a surpresa de ambos hoje estarem atrasados.
ridículo mas lindo.
ela sentou atras dele, reparou no seu cabelo e seu pescoço, o couro cabeludo é rosa como todas as pessoas muito brancas e meio loiras.
ele é lindo e tímido, como gosta.
ao chegar no terminal, ela brincou de segui-lo,
agora sabe que ele escapa pra aquela rua,
mais um pouco e ela descobre sua trajetória pra colidir com sua sorte, seu atraso, seu descompasso, seu sono atrasado, seu encontro inesperado, sua vontade de amar como um louco desesperado.

14 de março de 2006

antes do amanhecer até antes do pôr do sol....


acordando ainda antes do amanhecer ela dirige-se ao ponto de ônibus, sem pensar, automática como num ponto morto, sonhando ainda.
todos os dias é igual. levanta-se as seis da manhã, sabe exatamente pra onde vai, e cronometra seu percurso pra não perder o sentido do tempo que é controlado pelo Estado, o tempo não mais lhe pertence.
todos os dias ao mesmo horário no mesmo ponto o mesmo moço, baixinho, como gosta, loirinho, cabeça rapsdinha, como gosta, calado, como gosta, olhos distantes e misteriosos, como gosta. Não se falam, mal se olham, um dia quem sabe? Um bom dia sempre ensaiado que não escapa pelo ridículo da situação de ter de fingir não reconhecer esse estranho que encontra todos os dias ao mesmo horário pela manhã, que já é um conhecido, embora nem lhe saiba o nome. Deu-se conta esses dias de que por meses ele é o primeiro homem interessante que vê pela manhã, e como é muito cedo, é quase como seu marido secreto, como se com ele amanhecesse todas as manhãs por rotinas insuportáveis seguidas.
Mas não há nada de insuportável nisso. É um mistério. Um dia é uma olhada, noutro encostam-se um na mochila do outro mas não pedem desculpas, noutro as circunstâncias da superlotação os aproximam. Sempre disfarçando os olhares entre a multidão, podia ser ele ou ela pra escapar daquele busão e parar no Expresso Oriente em algum ponto qualquer do planeta, que não o planeta diário e ordinário.
O que ele faz? Ele tem cara de estudante de universidade privada, mas muito responsável porque não falta nenhum dia. Pontual. Ela não, ela já é mais desorganizada, não falta do trabalho mas chega às vezes atrasada com a mesma desculpa de que perdeu o busão. Culpa-se quando perde o busão daquela linha pois não vê a carinha do moço de olhos cansados recém acordados, mas lindo, desconcertante e nada obviamente lindo.
Na volta pra casa, ela de novo num ônibus avista-o passar a pé, agora protegida entre as vidraças que passam rápidas ela observa atentamente porque ele anda daquele jeito distraído, o que deve carregar na mochila, um caderno, um tênis, um livro de Platão, mais um all star?no que ele pensa?tem namorada?está apaixonado e é correspondido?onde mora?é meu vizinho e não sei?
Um dia quem sabe eles se conheçam e se reconheçam....
e aí, quem sabe se digam "bom dia",
quem sabe aí nasça novos sonhos depois que o sol se ponha, e ela reconheça ele em seus sonhos , que a transitoriedade dos lugares aos não- lugares como no ponto de ônibus não a angustie mais, porque tudo escapa, tudo voa, tudo é efêmero, saber disso como isso a enjoa, enjoa mais que acordar a seis todo dia, balançar com o volante brusco do motorista, o que atormenta é ver, ver e não saber, ver e não olhar, ser vista mas não vista.
Multidão amorfa, torna-se amorfa.
Um dia, no dia do bom dia e da derrubada da hipocrisia de fingir que não repararam que são os únicos madrugadeiros daquele ponto perdido numa avenida de cidade dormente, dirão "bom dia" e nesse momento acordará a bela adormecida para um dia real.

9 de março de 2006

encontros súbitos, emoções dúbias.


E na busca de uma resposta, ela escutou de um oráculo:

_ Tem pessoas que esquecem os sentimentos com a distância
sem esquecer a pessoa.


_Como assim?

_Tem duas possibilidades : ou seu amor quer ficar com você mas precisa ver você novamente para lembrar. Então você vai ficar muito feliz.Ou não há mais interesse em você. Então você precisa saber que terminou.

_Pois é....isso que me deixa triste porque eu não sei...

_ A prisão em que se encontra. Porque se não sabe, como saber que precisa fazer outra coisa e conhecer outra pessoa ? A prisão em que se desencontra... Saber é perigoso. Mas é preciso saber. Você vai ficar triste mas é melhor para você.

_Parece que meu coração ficou fechado depois desse encontro....A abertura para os outros, os outros caras todos que me ligam mais ainda na proporção em que os esnobo...por que fogem quando dou atenção e chegam mais quando não procuro? Eis o dilema da mulher da minha geração.

_ Seu coração só vai abrir de novo no momento em que houver o encontro dos desencontros dos dois corações. Assim saberá se a sua sorte cola na outra ou não. Se não colar, seu coração se contrairá de dor mas aí relaxará e ficará tão fraco que só o que pedirá é um pouco do amor de qualquer outro coração, assim ele estará novamente aberto pra aventura da sua busca amorosa. Porque se aquele amor te quer, então tudo bem, que se foda, mas se não, então que se foda também, porque você vai poder com muito tempo abrir outra vez o seu coração. Acho que você precisa saber, que seja para seguir ou terminar, comprende?

_ Acho que não estou muito querendo saber. Meu coração é fraco, ele não aguentaria, tenho os ossos fracos como o pintor dos quadros de plágio, imito a vida, não vivo a minha, observo o amor passar da janela, ele está longe, por isso me envolvo, me entrego, se estivesse perto, me assustaria como com esses outros. Horizonte distante me protege. Invento as dores, não saberia viver as minhas. Não saberia viver toda sorte de sentimentos que existe, tenho medo. Deixa o desconhecido cegar meus olhos, quem sabe assim de olhos fechados eu volte a dormir e sonhe de novo.

_Não se foge do destino, eis o princípio de todo oráculo.

7 de março de 2006

e por falar em viagem...



Esta vida é uma viagem

Pena eu estar

Só de passagem

Que tudo se foda,

Disse ela,

E se fodeu toda

Saber é pouco

Como é que a água do mar

Entra dentro do coco?

Amar é um elo

Entre o azul

E o amarelo

Morreu o periquito,

A gaiola vazia

Esconde um grito

Duas folhas na sandália

O outono

Também quer andar

Pra que cara feia?

Na vida,

Ninguém paga meia.

Hoje à noite

Até as estrelas

Cheiram a flor de laranjeira

Um salto de sapo

Jamais abolirá

O velho poço

Quando penso

Em partir em viagem,

O fim da primavera

De colchão em colchão

Chego à conclusão

Meu lar é no chão

A noite - enorme

Tudo dorme

Menos teu nome

(paulo leminski)


e ..

de colchão em colchão

chego à conclusão

meu lar é ALTER DO CHÃOOOOOOO!!!

e quando eu chego

que vontade que tudo se foda

e que o efêmero não escape

e nada seja só de passagem nessa vida que é uma viagem

e que sim, mesmo, o amor é um elo, entre o azul e o amarelo.

nada dorme, tudo está latente, seu nome que me consome nas noites insones.

na próxima viagem eu quero ser o Fábiooooooo! 2

meu deuuuuuuuuuuuuussssssssssss!!!
caralhooooooooooooooo!!
puta que pariu!!! olha só! quem disse que dar aula no ensino público não dá dinheiro!!!!!????

na próxima viagem eu quero ser o Fábioooooooooo!

olha se o cara q tirou não é um cara fascinado por enquadramentos perfeitamente simétricos??!

que que issooooo.....por Dios!

6 de março de 2006

la magia

o que é a magia senão uma coisa assim que escapa do nosso controle?
o pôr- do- sol cabe nas minhas mãos mas logo vai.
o efêmero sempre se esvai.
mas não há eternidade compatível com a largueza do brilho do olho quando se vê algo como isso:
o pôr-do-sol pairando sobre as cabeças de um dia perfeito na Ilha de Algodoal, mirado pela brecha da fechadura do alvorecer, no cume das dunas da praia da princesa.

5 de março de 2006

Paga lo que deves!

nunca imaginei que chegaria o dia em que ficaria até 0h45 da matina de luz acesa zanzando pelo quarto e fazendo as contas. entre uma e outra um bali hai pra pensar meticulosamente um jeito de não estourar o Master Card. cena ridícula e clichê. merda de adulto criança nunca sonha comer. o mundo masculino me atingiu com seu rigorismo e formalismo ao mesmo tempo que o resquício do feminismo com a mulher que se banca, se autosustenta,(não porque quer, mas porque precisa) me fuderam as contas do mês de março. Marx...Marx...nunca imaginei que o materialismo histórico me fosse tão útil para não me culpabilizar enquanto indivíduo do fracasso da má administração das minhas contas pessoais. É a lógica perversa do Capital que me devora agora e escancara minhas vísceras pra fora!
Antes, criança, eu tinha em abundância insônias atônitas de insights e epifanias bolando projetos de futuro soltos no escuro, sonhar de olhos abertos era minha cotidiana aventura. Hoje, as noites em claro são pra bolar estratégias e estratagemas com os números frios da calculadora automática, para assim manter a luz acesa e olhos atentos para que nem a luz nem a água sejam no fim das contas...cortados!!

como si fuera la ultima vez....



BESAME MUCHO
Música: Consuelo Velázquez
Letra: Consuelo Velázquez

Bésame, bésame mucho
Como si fuera esta nochela última vez
Bésame, bésame mucho
que tengo miedo a perderte
perderte despúes
Quiero tenerte muy cerca
mirarrme en tus ojos
verte junto a mí
Piensa que tal vez mañana
yo ya estaré lejos
muy lejos de aquí
Bésame, bésame mucho
Como si fuera esta noche
la última vez
Bésame, bésame mucho
que tengo miedo a perderte
perderte despúes
Bésame, bésame mucho...

seria só mais um filme norte-americano pré-fabricado pela indústria cultural numa tarde de sábado estirada na sala, é meio bobinho mas eu gostei....e por ele pude sonhar daquele jeito hollywoodiano pensando naquilo que eu gostaria de sempre lembrar e para sempre conquistar e ser conquistada toda manhã.

como se fosse a primeira vez eu gostaria de sempre lembrar do seu brilho dos olhos quando me pediu o primeiro beijo. e que o primeiro beijo fosse eternamente selado e celebrado nas manhãs após a chuva torrencial. para todo o sempre nunca esquecer o cheiro da terra molhada naquele dia e dos seus cabelos como eram ainda mais negros em contraste com sua pele branca sobre o meu colo. e eu voava, lembrar sempre o momento do primeiro vôo, lembrar como é que se voa entre as nuvens, nuvens que juntas formam uma plantação de nuvens, nuvens que são como algodão, uma grande plantação de algodão, um Algodoal.

Algo do All

lembrar algo de tudo.

tempo...tempo....mano velho.. 2

considerando o texto abaixo....
era por isso então que eu me sentia num outro tempo e espaço no Norte!
o tempo largo,
outra concepção de tempo e espaço,
meus passos largos, dispersos e distraídos, sem, contudo, ficarem soltos e perdidos.,
a exatidão dos instintos..
e os ritos.
ritos como repetição para não esquecer a novidade.
mil e uma informações novas no mesmo segundo. talvez por isso eu me sentisse mais viva, mais ativa, mais guerreira, mais mulher forte do norte.
de olho nas placas, nas rotas, nos pés, no clima, nos sabores.

tive muitos rituais também,
sem saber,
era como que para fixar na memória não só a passagem do tempo,
mas sobretudo, para não deixar escapar o momento de transição.
os rituais fixam normas e costumes,
eles são geralmente impressos no corpo,

sim, está tudo aqui dentro! marcado pra sempre!
marcado o tempo no espaço do meu corpo!
novas rotas, novos símbolos e imaginários fartos desses tempos largos!

4 de março de 2006

tempo...tempo...mano velho!

recebi isso por e-mail, não sei o autor, ou o excesso de FW: das comunicações virtuais o apagou da memória autoral...a utilização em massa dos meios de comunicação de massa deletou os direitos autorais dele.


O cérebro humano mede o tempo por meio da observação dos movimentos. Se alguém colocar você dentro de uma sala branca vazia, sem nenhuma mobília, sem portas ou janelas, sem relógio... você começará a perder a noção do tempo. Por alguns dias, sua mente detectará a passagem do tempo sentindo as reações internas do seu corpo, incluindo os batimentos cardíacos, ciclos de sono, fome, sede e pressão sanguínea. Então... quando tempo suficiente houver passado, você perderá completamente a noção das horas, dos dias... ou anos. Estou exagerando para efeito didático, mas em essência é o que ocorreria.Isso acontece porque nossa noção de passagem do tempo deriva do movimento dos objetos, pessoas, sinais naturais e da repetição de eventos cíclicos, como o nascer e o pôr do sol. Se alguém tirar estes sinais sensoriais da nossa vida, simplesmente perdemos a noção da passagem do tempo.Compreendido este ponto, há outra coisa que você tem que considerar: nosso cérebro é extremamente otimizado. Ele evita fazer duas vezes o mesmo trabalho. Um adulto médio tem entre 40 e 60 mil pensamentos por dia. Qualquer um de nós ficaria louco se o cérebro tivesse que processar conscientemente tal quantidade de pensamentos. Por isso, a maior parte destes pensamentos é automatizada e não aparece no índice de eventos do dia. Para que não fiquemos loucos, o cérebro faz parecer que nós não vimos não sentimos e não vivenciamos aqueles pensamentos automáticos, repetidos, iguais.Por isso, quando você vive uma experiência pela primeira vez, ele dedica muitos recursos para compreender o que está acontecendo. É quando você se sente mais vivo. Conforme a mesma experiência vai se repetindo, ele vai simplesmente colocando suas reações no modo automático e "apagando" as experiências duplicadas.Se você entendeu estes dois pontos, já vai compreender porque parece que o tempo acelera, quando ficamos mais velhos e porque os natais chegam cada vez mais rapidamente.Quando começamos a dirigir, tudo parece muito complicado, o câmbio, os espelhos, os outros veículos... nossa atenção parece ser requisitada ao máximo. Então, um dia dirigimos trocando de marcha, olhando os semáforos, lendo os sinais ou até falando ao celular (proibido no Brasil), ao mesmo tempo. E você usa apenas uma pequena "área" da atenção para isso.Como acontece? Simples: o cérebro já sabe o que está escrito nas placas (você não lê com os olhos, mas com a imagem anterior, na mente); O cérebro já sabe qual marcha trocar (ele simplesmente pega suas experiências passadas e usa, no lugar de repetir realmente a experiência). Em outras palavras, você não vivenciou aquela experiência, pelo menos para a mente. Aqueles críticos segundos de troca de marcha, leitura de placa... são apagados de sua noção de passagem do tempo... Porque estou explicando isso? Que relação tem isso com a aparente aceleração do tempo? Tudo.A primeira vez que isso me ocorreu foi quando passei três meses nas florestas de New Hampshire, Estados Unidos, morando em uma cabana. Era tudo tão diferente, as pessoas, a paisagem, a língua, que eu tinha dores de cabeça sempre que viajava em uma estrada, porque meu cérebro ficava lendo todas as placas (eu lia mesmo, pois era tudo novidade, para mim). Foram somente três meses, mas ao final do segundo mês eu já me sentia como se estivesse há um ano longe do Brasil. Foi quando comecei a pesquisar a razão dessa diferença de percepção.Bastou eu voltar ao Brasil e o tempo voltou a "acelerar". Pelo menos, assim parecia. Veja, quando você começa a repetir algo exatamente igual, a mente apaga a experiência repetida. Conforme envelhecemos, as coisas começam a se repetir -- as mesmas ruas, pessoas, problemas, desafios, programas de televisão, reclamações... enfim... as experiências novas (aquelas que fazem a mente parar e pensar de verdade, fazendo com que seu dia pareça ter sido longo e cheio de novidades), vão diminuindo. Até que tanta coisa se repete que fica difícil dizer o que tivemos de novidade na semana, no ano ou, para algumas pessoas, na década.Em outras palavras, o que faz o tempo parecer que acelera é a... r-o-t-i-n-a.Não me entenda mal. A rotina é essencial para a vida e otimiza muita coisa, mas a maioria das pessoas ama tanto a rotina que, ao longo da vida, seu diário acaba sendo um livro de um só capítulo, repetido todos os anos.O ANTÍDOTO PARA A ACELERAÇÃO DO TEMPO: "M &M"Felizmente há um antídoto: Mude e Marque. Mude, fazendo algo diferente e marque, fazendo um ritual, uma festa ou registros com fotos. Mude de paisagem, tire férias com a família (sugiro que você tire férias sempre e, preferencialmente, para um lugar quente, um ano, e frio no seguinte) e marque com fotos, cartões postais e cartas. Tenha filhos (eles destroem a rotina) e sempre faça festas de aniversário para eles, e para você (marcando o evento e diferenciando o dia); Use e abuse dos rituais para tornar momentos especiais diferentes de momentos usuais. Faça festas de noivado, casamento, 15 anos, bodas disso ou daquilo, bota-foras, participe da formatura de sua turma, visite parentes distantes, vá a uma final de campeonato, entre na universidade com 60 anos, troque a cor do cabelo, deixe a barba, tire a barba, compre enfeites diferentes no natal, ou faça os enfeites com frutas da região e a participação das crianças, vá a shows, cozinhe uma receita nova, tirada de um livro novo.Escolha roupas diferentes, não pinte a casa da mesma cor -- faça diferente. Beije diferente sua paixão e viva com ela momentos diferentes. Vá a mercados diferentes, leia livros diferentes, busque experiências diferentes. Seja diferente.Se você tiver dinheiro, especialmente se já estiver aposentado, vá com seu marido, esposa ou amigos para outras cidades ou países, veja outras culturas, visite museus estranhos, deguste pratos esquisitos... em outras palavras... v-i-v-a. Porque se você viver intensamente as diferenças, o tempo vai parecer mais longo. E se tiver a sorte de estar casado (a) com alguém disposto (a) a viver e buscar coisas diferentes, seu livro da vida será muito mais longo, muito mais interessante e muito mais... vivo.... do que a maioria dos livros da vida que existem por ai. Se você não tiver mais a esposa, ou o marido, cerque-se de amigos. Amigos com gostos diferentes, vindos de lugares diferentes, com religiões diferentes e que gostam de comidas diferentes. Enfim, acho que você já entendeu o recado, não é? Boa sorte em suas experiências para expandir seu tempo, com qualidade, emoção, rituais e vida.