desenho de William Blake
O poeta saltou de algum andar de algum prédio do centro velho daquela cidade. Demorei para te escrever, poeta, não via antes muito sentido em fazê-lo seguida à sua morte ante aos apelos da multidão atônita. Muitos, intencionalmente ou não, se auto promoveram com a tua desgraça. Ora fazendo odes, homenagens, edições especiais, temas de rodas de conversa e mesa redonda ou lembrando alto as bizarrices que já fizestes e as coisas belas que dissestes. Mas tudo isso convergia para só um motivo: transformá-lo num mito. A questão é: de que tipo? Me indigno com o modo como pintam você agora como se fosse doce sofrer um martírio. Para mim, mitificar algo ou alguém e esboçá-lo como para além de tempos imemoriais, identificando-o com alguma lenda vida ou algum eterno retorno que se tranfigura na figura de algo ou alguém...pra mim tudo isso é o primeiro passo para matar algo ou alguém, é petrificá-lo. E quero que vivas, mas não engessando-o como uma lenda....morta. É fácil distanciar algo ou alguém pelo signo do mito, quero ver se alguém bem proximamente se têm coragem de se materem um pouco com a tua morte e viver um pouco da tua vida. E eu fiz estranhamente os dois caminhos, por isso que hoje eu te desmistifico. Conto aqui uma pequena história pros outros verem como você era tão normal, e que ser louco pode ser até redentor, mas apenas para aqueles que longemente o vêem, pra quem tá perto não é não. Conheci-te em 1999 quando eu matava aula do colégio pra ir fazer oficina de Hai Kai com a poeta Alice Ruiz, a viúva do Leminski, que me ensinou um pouco do zen e da dor da mãe que perde um filho. Eu, sei, você é quem perdeu a mãe quando nasceu, triste demais, nem consigo imaginar essa dor que carregastes a vida curta afora. Nas oficinas você se apresentava sob o codinome de Duas Penas, nem me lembro bem exatamente por quê mas bem sugestivo hoje né meu poeta alado? Acho que lá te acharam um arrogante, presunçoso e pernóstico ( e às vezes você era era mesmo incoveniente, nos últimos tempos então, isso tava demais, invadia as salas da UEL, nas palestras, nas aulas, se metia a discutir qualquer assunto em qualquer língua: inglês, francês, japonês, alemão e ora veja só até tupi-guarani. Todo mundo lá te achou um chato, essa é a verdade, menos eu, que nem sei bem exatamente por quê mas de cara já gostei de você. Então entrei na UEL: 1 o. ano mas eu não era nenhuma caloura boba e burra(até certo ponto!) porque desde três anos antes eu já convivia com meus futuros veteranos. Aconteciam então os luaus(luais?). E você organizou um dos primeiros com sarau e tudo e propôs um observatório a olho nu das constelações. Fez até um mapa (muito tosco) das clássicas Balança, Escorpião, Orion... que eu com o meu pouco senso de localização não soube achar. Aí dancei, bebi vinho, ouvi declamações. Eu tava com aquela calça amarela gema e tênis all star branco de cano alto que àquela época eu costumava usar pra me diferenciar do rebanho. Era 5 de abril de 2000. Eu lembro porque nesse dia era o niver da Dri que acabou sendo e é uma das grandes amigas. De repente eu e você estávamos dançando, fomos dançando "que é pro corpo ficar odara" e começamos não sei como um jogo teatral de jogo de espelhos. E fomos nos aprochegando e de repente não mais que de repente eu era você e você era eu e o duplo do espelho tornou-se uno no beijo. E foi lindo, uma das vezes mais poéticas que fico com alguém. Você também tinha a mania como eu de abrir os livros ao acaso tal qual fazem os devotos com a Bíblia, e assim os poemas se nos surgiam como prenúncios, messagens, oráculos ou coisa que o valha. Você pediu pra eu fazer isso como quem abre as cartas do Tarô e na nossa despedida caiu aquele do Pessoa que eu desesperadamente escutava no walkman pela voz de Bethania em Rosa dos Ventos. Você o declamou pra mim com as entonações que só você fazia e sabia dar a densidade pra certas palavras. Esta foi nossa despedida de um amor que poderia ter sido mas não foi. Insiro aqui o poema e te ofereço em gratidão, lembra como você costumava nos chamar pra ir oferendar flores pros transeuntes?Então eu te oferendo este que é pra celebrar a vida onde quer que você esteja: Alberto Caeiro
VIII - Num Meio-Dia de Fim de Primavera
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia. Vi Jesus Cristo descer à terra. Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do céu. Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No céu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e árvores e pedras. No céu tinha que estar sempre sério E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda à roda de espinhos E os pés espetados por um prego com cabeça, E até com um trapo à roda da cintura Como os pretos nas ilustrações. Nem sequer o deixavam ter pai e mãe Como as outras crianças. O seu pai era duas pessoas Um velho chamado José, que era carpinteiro, E que não era pai dele; E o outro pai era uma pomba estúpida, A única pomba feia do mundo Porque não era do mundo nem era pomba. E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Não era mulher: era uma mala Em que ele tinha vindo do céu. E queriam que ele, que só nascera da mãe, E nunca tivera pai para amar com respeito, Pregasse a bondade e a justiça! Um dia que Deus estava a dormir E o Espírito Santo andava a voar, Ele foi à caixa dos milagres e roubou três. Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo criou-se eternamente humano e menino. Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que há no céu E serve de modelo às outras. Depois fugiu para o sol E desceu pelo primeiro raio que apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural. Limpa o nariz ao braço direito, Chapinha nas poças de água, Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras aos burros, Rouba a fruta dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cães. E, porque sabe que elas não gostam E que toda a gente acha graça, Corre atrás das raparigas pelas estradas Que vão em ranchos pela estradas com as bilhas às cabeças E levanta-lhes as saias. A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as cousas . Aponta-me todas as cousas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas Quando a gente as tem na mão E olha devagar para elas. Diz-me muito mal de Deus. Diz que ele é um velho estúpido e doente, Sempre a escarrar no chão E a dizer indecências. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia. E o Espírito Santo coça-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as. Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica. Diz-me que Deus não percebe nada Das coisas que criou — "Se é que ele as criou, do que duvido" — "Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória, Mas os seres não cantam nada. Se cantassem seriam cantores. Os seres existem e mais nada, E por isso se chamam seres." E depois, cansados de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos meus braços e eu levo-o ao colo para casa. . Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava. Ele é o humano que é natural, Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda a certeza Que ele é o Menino Jesus verdadeiro. E a criança tão humana que é divina É esta minha quotidiana vida de poeta, E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mínimo olhar Me enche de sensação, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo. A Criança Nova que habita onde vivo Dá-me uma mão a mim E a outra a tudo que existe E assim vamos os três pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que é o de saber por toda a parte Que não há mistério no mundo E que tudo vale a pena. A Criança Eterna acompanha-me sempre. A direção do meu olhar é o seu dedo apontando. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas. Damo-nos tão bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos e dois Com um acordo íntimo Como a mão direita e a esquerda. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa, Graves como convém a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo um universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixá-la cair no chão. Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens E ele sorri, porque tudo é incrível. Ri dos reis e dos que não são reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, E dos comércios, e dos navios Que ficam fumo no ar dos altos-mares. Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade Que uma flor tem ao florescer E que anda com a luz do sol A variar os montes e os vales, E a fazer doer nos olhos os muros caiados. Depois ele adormece e eu deito-o. Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno até ele estar nu. Ele dorme dentro da minha alma E às vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos. Vira uns de pernas para o ar, Põe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono. Quando eu morrer, filhinho, Seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar Até que nasça qualquer dia Que tu sabes qual é. Esta é a história do meu Menino Jesus. Por que razão que se perceba Não há de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filósofos pensam E tudo quanto as religiões ensinam?
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