28 de novembro de 2005

Café arterial:

Café nas veias.
São mais de seis da matina de um dia cuja noite anterior eu não fui dormir e nem vou acordar. Encontros oníricos.

"Sou humana, demasiadamente humana, e nada do que é humano me é indiferente"- sabedoria trágico grega.

Tenho sentido uns troços estranhos. Estranho-me. Uns humores exaltados, umas emoções escarafunchadas bem no âmago do umbigo e no íntimo. Será normal?
Tendo dormido mal, tenho pensado muito.
Minha cabeça até desentectualizou-se um pouco à medida em que foi se descabeçando e se descabaçando.
Tenho pensado muito com as partes baixas do ventre e isso me deixa livre ou presa pra dentro?
Não consigo parar de escrever obscessivamente.
Acho que preciso novamente de uma pitada de psicanálise pra me descabelar. Comportamental eu não faço porque não quero me domesticar nem livrar-me dos meus atos mais vis e sujos.
Sou impura. Sou Geni, "sou boa de cuspir".
Quem me vê passar pode até pensar que eu sou um anjo. Um anjo, amigo? Só se for um anjo caído.
Não paro de pensar nas possibilidades virtuais de me debandar temporariamente e temperofortemente para o lado de lá. Mas será?!
Meu grafite, minha psicocaligrafia simultânea com meus deuses e deusas que emanam amor, posse, desejo, fissura, loucura. E eu posso com tudo isso? E eu dou conta? Faço as contas e percebo que vale a pena, - já considerando as perdas e danos,- não posso, afinal ficar em dívida com a vida. E a vida tem me dado tanto, convém não recusar pois pode não mais chegar. E "é preciso viver tudo", como já diria Rilke e "deixar que cada impressão chegue à realização plena do ser".
E impressões bobas como "quem sou, de onde vim, para onde vou"- já não fazem mais sentido pra mim. Parei de me voltar para meu auto solilóquio ultra solipsista e me joguei alarmada para o Outro. Mas não o Outro absoluto, mas o Outro de carne e osso. E é para este que pergunto:
_ "quem é? de onde você veio, meu amor? para onde vamos?"
O meu dedo do meio da mão direita tem um calo saliente dado a pegada na caneta, lápis ou pena. Não tenho pena dele, eu até gosto- gosto porque denuncia justamente o meu vício de meter poemas e compor poemetas.
Nada disso, entratanto, me denuncia a ponto de apontarem na rua.
Continuo sendo um mistério, um livro secreto para um público seleto, para poucos escolhidos e iniciados e aliciados: me preservo.
Mas quando tô de lua sai de baixo que até uivar eu uivo. Sinto vivo o vigor da minha devassidão pela imensidão do Cosmos que eu como todos os dias com café com pão nas minhas horas mais ternas de solidão.
Sinto ter invadido sua vida - você Outro fugidio- pois minha mão acarinha mas tem também a força afoita e bruta que ceifa a vida na sede da ceia.
Meus seios eu descanso no meu colo enquanto durmo, nino-os como quem nina um desconhecido, um Outro. Como se ninasse um ser que a mim não pertence mas por uma breve pele, uma mera membrana me liga e me emana amor e dor.
Nada disso seria possível, óbvio, se eu não fosse doidivanas, se eu não saisse gritando minha dor e meu grito de gozo e alívio pros Outros. Porque ai! eu vivo!
Balanço nessa corda bamba de circo que é puro risco do desequilíbrio. Mas não ligo com meu equilíbrio desequilibrado e tampouco com meu desequilíbrio meticulosamente calculado por sinapses misteriosamente inefáveis.
Mas ah! eu não ligo justamente porque:
Ai! eu simplesmente vivo!



2 pitadinhas:

luana vignon disse...

parodiando Cintia Cintilante: Se joga Amapô!!!!!

cris disse...

como assim?!hahaha não conheço essa gíria! exprica!